A velha sensação, – ambígua. Esqueci de algo, esta manhã lembro de acordar e lembrar que eu deveria ter lembrado de algo, esqueci, odeio essa sensação, é como perder alguma coisa, mas, não saber o que é. Angustiante. Sinto aquele formigamento familiar, não é coisa boa, a ansiedade dá as caras, começa pelas pontas dos dedos dos pés, até chegar aos joelhos, sinto na palma das mãos, o estômago arde, agora as orelhas coçam, e quando alcança o crânio, esmaga.
Meio dia, e nada aconteceu, na verdade, me pergunto onde estava todo esse tempo. Sei que segundos antes eu andei pela casa, faço isso sempre em dias assim. Entrei no quarto, minha janela não abre, está quebrada.
Acordei, pelo menos acho que sim, aquele breve momento insone, meus olhos semi abertos, pesados, saindo de algum sonho, eu ainda estou nele, tão fresco na minha memória, o corpo reagindo a mudança entre os mundos, não sei onde estou, minha cabeça está virada para a parede, meu corpo em equilíbrio estático, pelo menos conseguia me mexer, – algumas vezes não consigo move-lo – um zumbido fraco de um ouvido ao outro, aos poucos o lugar vai ficando familiar, ainda não consegui abrir totalmente os olhos, não ouço mais nada, ainda é muito cedo, sinto o cheiro da noite, acho que não amanheceu, os olhos pesam, acordo, devo ter dormindo de novo, ou talvez tenha acordado só agora. Desenhos abstratos começam a se formar na parede pálida, não me movo enquanto continuo a olhar fixamente essa projeção de luz, ainda fria, sei que está vindo da janela quebrada, passando pelas frestas, percebo o tempo, que até então não estava lá, está passando, pois o desenho vai mudando sua forma, dissipando até sumir, os segundos correm agora, sinto um calor morno nos meus pés, viro a cabeça, são os pequenos feixes de luz, milhares de pontinhos reluzentes, está mais quente, pequena poluição luminosa, dispersando a escuridão do quarto, tão bela, fico até feliz pela janela ainda estar quebrada, não sinto a necessidade de me mover, mas levanto o meu braço, coloco minha mão aberta num desses feixes luminosos, e fico assim por um tempo, calor aconchegante do Sol numa manhã fria, – é uma daquelas lembranças sensoriais -, posso segurá-lo na palma da minha mão, poderia ficar assim por mais um tempo, nestes segundos eternos. Desaparece.
Paro em frente ao espelho, meu reflexo agora é um vulto desfocado, atrás acima do meu ombro direito, olho a parede, continua pálida, tudo é silêncio, eu gosto do silêncio, este em particular. Mas é uma ilusão, algo continua me incomodando, este silêncio é só a parte disfarçada da inquietude. Volto pra sala, estou refazendo o caminho, não sei, mas sempre que faço isso acabo por lembrar de coisas, qualquer coisa que tenha esquecido, não funciona sempre mas já é automático, já é um começo, percorrer os cômodos, corredores, descer e subir as escadas. Não tem ninguém em casa, gosto disso, me achariam louca, não sabem que eu sou, devo ser, ainda bem que estou só, começo a abrir todas as janelas, menos a do meu quarto, o vento invade, úmido, o dia está frio, os melhores são sempre assim, sinto uma conexão com o Universo, faz parecer que tudo ficará bem.
O formigamento está passando, lentamente, mas a inquietude ainda persiste, decido então que não irei me lembrar, seja lá o que for que tenha esquecido, – ainda sinto o vazio, sento no chão, o lugar parece flutuar em meio a um tornando em câmera lenta, sem som, ele vem de dentro, te rasgando, até sair pra fora, o lugar todo sente sua presença, parece que encontrei alguma coisa, mas ficou tarde.
O barulho, pequenos ruídos, pouco a pouco, de todos os lados vai preenchendo o ar, ele pesa.
Deveria ficar feliz, mas é irritante, sinto falta do silêncio.
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