A árvore não está tão velha, não chegou a metade de sua vida, mas sua raiz já está apodrecendo, suas folhas agora caem fora da estação, poeira no ar, e o ar está úmido. Ouço ruídos, ocos, uma respiração ofegante, abafada, sinto tão próxima, parece se misturar com a minha, – aquelea velha e leve impressão, se afasta, um pouco mais longe, cada vez mais, observo e ouço atentamente, está vindo das entranhas, subindo em desespero, arranhando a casca, os gemidos pausados de dor, um animal preso, moribundo, agarrando-se ao último suspiro de vida. O vento parece assustado, sem direção, violento, mesmo que não sinta isso quando toca e atravessa meu corpo, somos um só, encontrando suas partes perdidas, ali, no resto da existência, o estalo vem do topo, os galhos começam a rachar, deteriorando, ao poucos, em segundos, caindo. O céu parece tão próximo, seu horizonte, desaparecendo, os tons suaves do entardecer, desaparece por fim, sinto que se pulasse um pouco poderia tocá-lo com as mãos, está caindo, o cheiro de terra molhada invade o ar, não há chuva, ainda. Mas o cheiro e agora também o barulho ficam mais fortes, está chegando, a tempestade, daquelas que duram a eternidade. – eu, sou apenas uma passageira, e o vento, apenas o ceifador de passagem.
Tenho insônia, algumas noites mais insuportáveis que outras, mas já faz um tempo, desde a última vez que eu era uma morta viva. Agora eu durmo, e tenho longos sonhos (ou acredito que sejam), tão familiar. Acordo. O vazio que se faz é tão ensurdecedor, parece que algo se desfez, pra sempre. Eu ainda acordo no meio da noite, ainda ando, contemplo o seu silêncio, o céu, o vento fresquinho da madrugada, outras vezes, apenas fico lá sentada, encarando a escuridão, esperando alguma coisa, por horas talvez, não sinto ela passar, nada acontece. Tudo é tão mais vivo, antes do amanhecer.
Os dias se arrastam, e todos fazem questão de citar uma enorme lista existente de coisas que podem amenizar essa longa espera, uma espera que eles não entendem, eu também não, é complicado. As horas não passam, ou passam, rápido demais, a inquietude aumenta e não há escape, você conta até dez, e repete várias e várias vezes, tenta manter os pensamentos ordenados, impossível, é levado a anos no passado, e futuro, neste meio tempo o presente inexiste, você grita, dentro da sua cabeça, mas não há som.
Não existe.
Existe essa longa espera, essa desordem, inquietude. Não existe carona a beira da estrada.
Alguns nascem com cicatrizes permanentes, uma marca de nascença. Não existe estação de parada, estamos flutuando, em meio ao caos que somos. E, o que seria de nós sem o caos, eu penso. Sem os invernos e tempestades, – que triste é, fingir a existência, sendo arranhado de dentro pra fora, ignorando a própria loucura, tão oco.
Há tanta vontade, e no fim, nada.
Deixe um comentário