Faz alguns anos, muitos anos quando aconteceu. Acordei em uma noite, estava em minha cama deitada de costas, olhos abertos fixos para o teto – mas essa era a imagem que eu via de mim mesma, abaixo de mim, ali, imóvel, uma casca oca. Não sei quanto tempo durou, mas, do que tive consciência foram somente alguns poucos segundos, no outro, éramos a mesma, num corpo só, mas não conseguia movê-lo. De imediato, gritei, os lábios não se moveram, não ouve som algum, pude ouvir somente dentro da minha cabeça, forcei meu corpo de todas as formas, para todos os lados, nada aconteceu, veio o pânico. Apenas meus olhos se moviam, consegui ver o quarto até onde a visão era possível, temia alguma coisa, mas lembro da minha respiração, despercebida até aquele momento, “está tudo bem”, repeti várias vezes, fechei os olhos, a tensão que sentia ia diminuindo, mantive os olhos fechados enquanto percorria mentalmente buscando movimentos do meu corpo, cheguei aos pés, os dedões se mexeram, alívio – os movimentos voltaram de uma vez, lembro que fiquei sentada na cama por um tempo tentando assimilar o que acabara de acontecer, dormi novamente. Resolvi que não contaria para ninguém, por um tempo guardei isso.
Essa foi a primeira vez, de muitas outras, essas que seriam muito mais angustiantes.
“A paralisia do sono é uma condição caracterizada por uma paralisia temporária do corpo imediatamente após o despertar ou, imediatamente antes de adormecer. O distúrbio começa quando a pessoa acorda e a paralisia do sono ainda está ativa – ocorre quando o cérebro acorda de um estado REM – Rapid Eye Movement (Rápido movimento dos olhos) fase do sono, onde ocorrem os sonhos mais vívidos, mas a paralisia corporal persiste. Isto deixa a pessoa temporariamente incapaz de se mover, nem falar. Na maioria da vezes, este estado pode ser acompanhado por alucinações hipnagógicas (alucinação auditiva, visual ou tátil que ocorre pouco antes do início do sono – visões e distorções sonoras que afetam a percepção da realidade). Como a consciência durante essa fase não é “estável”, não é possível saber ao certo o que é real e o que não é. Por isso, algumas pessoas relatam visões de seres estranhos, e sons, sensação de sufocamento, e até experiências extracorpórea.”
De certa forma eu já sei quando vai acontecer, quando terei uma paralisia do sono. Não é sempre tão lúcido, e não é sempre. Acontece uma onda de relaxamento pelo corpo e uma breve e longa distorção, como se nesse momento algo estivesse deixando o seu corpo (quando está quase pegando no sono, você sente isso levemente), porém, é mais forte e estou lúcida o bastante pra saber o que está acontecendo/vai acontecer (para quem não sabe, uma ideia de como parece – é como um estado de embriaguez, sem os enjoos, rs).
Já passei por algumas fases horríveis, entre alguns dos vários episódios, sendo empurrada bruscamente para fora da cama, e cair dela (sim, cair!), em outros apenas a pressão de mãos sobre as costas contra a parede, ou sentir um sufocamento, outras apenas o vislumbre de alguém e outros seres no meu quarto.
Eis então o que me motivou escrever hoje, sobre isso. Estava lendo um livro do Clive Barker, este livro em particular está me fazendo reviver alguns fatos de uma outra vida, mas enfim, é somente um pequeno adendo. Sei que adormeci, não senti nada de diferente, cai no sono, não demorou muito e fui arrancada dele, percebi, pois depois peguei o celular e quando olhei a hora não havia sequer passado cinco minuto desde que cai no sono. Estava de lado, virada de frente para parede (não gosto de dormi assim, e acreditem, não é coisa boa para mim fazer isso) então bruscamente ouve um puxão e fui virada de lado, pulei da cama assustada, e nada, tudo silêncio, escuro e vazio, quase tudo como deixei, só a luz que estava apagada, mas lembro que minha mãe havia apagado, em meio a sonolência vi ela abrindo a porta, olhou pra mim vendo se eu estava realmente dormindo, pensei em reclamar como sempre faço, dizendo que eu ainda estava lendo, o que não era verdade, mas resolvi não fazê-lo, deixei que apagasse.
Levantei, guardei o livro, tinha adormecido em cima dele, fui ao banheiro lavar o rosto, minha mãe estava na sala dormindo, deitada no sofá, a Tv ligada, o mesmo de quase todas as noites, deixei assim mesmo, de certa forma na minha cabeça nada de ruim vai acontecer, enquanto ela estiver ali, no cômodo ao lado, mesmo que dormindo e com aquele barulho da tv, as vezes sem programação, somente a tela azul iluminando suavemente ao redor, tenho essa sensação, não sei quando comecei a tê-la, mas quando estou acompanhada de alguém sinto que nada de horrível vai acontecer, o carro não vai bater, ninguém vai invadir a casa, não cairei do penhasco, não irei me afogar – mas, ainda assim gosto de estar sozinha, um pouco longe dessa certeza fantasiosa que criei.
Eu tinha sede, parecia que tinha ficado sem tomar água por dias, tomei alguns copos gelados, e voltei pra cama. Não demorou muito e veio aquela sensação já conhecida, forcei – em vão, voltar desse transe, tarde demais, dessa vez estava de costas para a parede, meu braço pendido para fora da cama, ouço passos e resmungo, crianças, ou parecia ser, o que quer que fosse aquilo, pois vi apenas vultos pequenos, furtivos correndo de um lado para o outro, um deles acertou minha mão, fiquei irritada, não sinto mais o pânico de antes, agora tudo isso me irrita, não me mover, me sentir indefesa, gritei mesmo sabendo que não adiantaria de nada, gritei alto, xinguei para que fossem embora., e com toda a inquietude da minha mente meu corpo cedeu e acordei. – Consegui malditos!, gritei, ainda mentalmente. Tinha despertado por completo, até que novamente adormeci, e novamente aconteceu, estava na mesma posição de antes – eu deito do lado contrário a cabeceira da cama, ficando com a cabeça para a porta, de uma forma que não consigo ver quem entra – então a porta abre, imediatamente pensei em minha mãe, deveria ser ela, mas não tive como saber, apenas senti essa presença, que olhava fixamente para mim enquanto entrava no quarto, a luz não foi acesa – não era minha mãe. Era outra coisa, uma coisa assustadora e silenciosa, ouvi os passos, a porta do espelho do meu guarda roupa sendo aberto, ainda com os olhos em mim, eu sei disso, senti por todo o corpo, não me exaltei neste momento, apenas observava atentamente as pequenas mudanças no ar, já que não podia observá-lo fora do campo de visão, a coisa sabia disso, então deu mais alguns passos, onde eu poderia vê-lo, queria ser visto, pude ver a forma dele, mais parecida com uma forma humana, só que mais alta, muito mais, andou até fica ao meu lado próximo aos meus pés. Não havia rosto, mas o lugar onde deveria ter um, era um vazio profundo e negro, emitia um som oco quase imperceptível, o encarei, não desviei o olhar, eu também queria que ele soubesse que não estava com medo, e não estava mesmo, ele iria embora mais cedo ou mais tarde, até lá ele saberia, que eu não temeria mais sua presença.
Praticamente metade da população sofre com a paralisia do sono, os episódios desse estado são diferentes para cada pessoa. É algo aterrorizante, angustiante e perturbador, principalmente quando não sabe com o que está lidando.
Quando estes episódios tornaram-se frequentes, fui pesquisar para saber mais, até então não sabia que era um “distúrbio”, que tinha nome e cara. Mesmo com toda a explicação científica, é difícil se ater somente a isto, a pensar nesses momentos apenas como algo científico, eu mesma não consigo, é como se os personagens dos seus pesadelos pulasse para a realidade.
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