Torpor.

Nunca pensei que isso tudo sairia do controle. Que sentiria esse pesar existencial tão profundo assim. Que não saberia viver.
Ao acaso você vira a esquina, e o ar fica friamente denso, o vento forte e descontrolado, o céu desaba, escurece. Há luzes aqui e ali. Tudo em segundos se desfaz, tudo muda, e as mudanças não precisam de tempo. Não precisam de nada – são segundos, já foi.
Tenho certeza que fiquei muito tempo parada esperando o trem, e vários se foram, perdi o último, perdi o tempo, e a lua já iluminava a estação por inteiro. Aquele vai e vem das pessoas foram diminuindo, humor desconcertante, perco o sentido e dou voltas, algumas inconscientes.
Tenho esses apagões de vez em quando, devaneios e embriaguez, é basicamente irritante me concentrar, a mente inquieta, quase sempre. O trem passa, meus olhos aceleram, as imagens quadro a quadro captadas lentamente, os rostos desfigurados, em movimentos abstratos, aos poucos desaparecem, enfim.
Ainda que imersa em sonhos, não sei bem, o sorriso, a inquietude nos gestos, a ansiedade desacelera direto para o estômago. Vi que estava totalmente à deriva, que saí do âmago existencial, para outro, este, onde o pesar era dilacerado e pela primeira vez em tanto tempo me senti leve, que meus pés se moveram sozinhos. Havia afinal, esse outro lado do abismo.
Tão assustador como algumas coisas parecem ser certas e ao mesmo tempo não tanto, como certas pessoas se tornam tão importantes e logo adiante, se vão.
Me tornei alguém que cria histórias que estão longe da realidade, que em pouco tempo já cria laços, e que de tão apertados, machuca.

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