Dia Quatro.

Acordei, depois de mais de 12 horas dormindo (o que foi pouco pela quantidade de remédios que tomei) o que não é de tão ruim, assim meus dias passam mais rápido e me alegro em dormir e sonhar, – dependendo da noite, algumas vezes até lembro dos meus sonhos, e isso é um alívio pois a realidade tornou-se inóspita no momento. Porém hoje, não lembro do que sonhei e se sonhei, não lembro de ter apagado ontem tão profundamente, mas acordei do jeito que estava no dia anterior, com a mesma roupa que coloquei após o banho, um travesseiro nos pés, outro eu estava abraçada, outro eu repousava a cabeça, minha janela entreaberta, um pouco de luz entrava no quarto e encarei a parede ao lado por alguns instantes, como sempre, a sensação leve e profunda, tentando lembrar que dia era, onde eu estava, “sonhando ainda?”, alguns segundos apenas até o despertar completo.
Os pássaros lá fora cantam, ou conversam, ou estão gritando, até parece uma discussão em grupo, mas é bom ouvi-los; eu sempre gostei de observar os pássaros, e sinto uma leve inveja deles, do salto ao precipicio de encontro ao vento em total liberdade, […]começou a chover, e eu afundei um pouco mais na cama, há tempos que nem lembrava mais dessa sensação, nostálgica e visceral que me trazia, parece que voltei aos meus 13 anos nesse momento, [“os pingos lá fora, eu deitada em algum puff na varanda, observando o céu desabar, a dança contínua da água e o vento, não sei se eles brigavam ou se amavam”] esses segundos que te teletransporta por anos em memória, tão vivida, que é possível sentir tocar a pele.
Ah, esses momentos, como é possível que possamos deixá -los empoeirar assim, num canto qualquer da memória, do coração…
Me distraí mais uma vez, e fui tirada do meu devaneio pós sonho, “Café. CAFÉ?!!” Cheiro de café! Isso mesmo, indescritível cheiro de café me invade as narinas. Levei alguns segundos pra assimilar, que meu olfato voltara, ainda que fraco, bem fraco, mas ali estava, Eu, que há mais de uma semana já estava me acostumando e esquecendo até, de ter essas sensações, [e como somos não.., ainda que por pouco tempo nos adaptamos e deixamos de sentir, lembrar]. Triste.
Fiquei um tempo com a xícara na mão cheirando o café, até tomar algumas delas. Ainda que bem sutil, voltar a sentir o cheiro e espero que também o gosto, logo mais, é sim uma das coisas que irei fazer com muito prazer e apreciar cada segundo. Me vi então motivada, e as palavras e pensamentos, coesos ou não, me fizeram ter vontade de escrever; cá estou, escrevendo pelo notes do celular (que é horrível, sim, mas é o que tem pra hoje rs).
Ontem em conversa com dois amigos, mesmo que em conversas a parte, acabou o assunto sendo similar. Mas antes de falar destes, outro que uns dias atrás com outro amigo, falávamos sobre os sonhos, o que de origem comecei a balbuciar aqui. Contei a ele sobre um sonho que tive, e sobre minha angústia com alguns sonhos que tenho e que quando acontece, meu dia segue com essa sombra me atormentando, a todo momento. A conversa segue e uma das coisas que ele me diz foi; “sempre acordo muito feliz, por mais que seja um pesadelo, é como se estivéssemos vivendo algo além do que somente os nossos dias” – concordei, claro, inteiramente. Não vou prolongar, ainda mais porque lembrei que a uns anos um outro amigo me emprestou o livro “O Homem e seus símbolos” do Jung, e que livro meus caros, ainda mais eu que sou uma devoradora de sonhos, esse é um livro que fala sobre o estudo dos símbolos dos sonhos, mitos e arte. Segundo o Jung o sonho era “um sopro da natureza” que tinha uma função compensadora. A mente não é uma “folha em branco”, mas sim um reservatório de imagens coletivas que o homem acumulou desde eras primitivas quando a psique do homem e do animal andavam juntas. Sim, é maravilhoso, e indico pra ler, [e desculpe, Slipled – amigo, acho que ficarei com ele mais algum tempo, pois irei reler, em breve…]
Voltando aos outros dois amigos, um deles me pediu indicações de livros sobre filosofia e afins, até parece que eu entendo muito disse, né. Mas eu gosto e sempre estou lendo se possível, afinal, tudo é questionável, é incerto, e louco, e precisamos de uma dose ou duas pra não enlouquecer de verdade (a crise existencial, todos irão sentir/ter em algum momento da vida, “eu tenho em todos os momentos” hahaha). Por fim conversava com a Dedê, minha maravilhosa amiga, desde os primórdios, filosofando sobre tudo, até criamos uma pasta intitulada “Filosofrases?”, “Trecos Filosóficos?”, perguntei agora pra ela, mas nenhuma de nós lembra de como chamamos aquilo, mas era divertido, e claro fizemos quando crianças, desde sempre a realidade e a vida, são coisas em questão que sempre vamos questionar.
Nossas conversas diárias, em sua maioria não são longas, as vezes é somente um ou duas frases, pra sabermos que podemos contar uma com a outra, sempre. Ontem, eu estava em desespero, quase sempre nesses dias estou assim, simplesmente não consigo assistir nada, nem jogar, nem ler, a inquietude é constante e dormir está sendo minha salvação, da loucura que beira a razão do isolamento, sim, acho que pra todos está sendo um caos, pra alguns mais, assim como pra mim. Porém, eu estou em isolamento, literalmente dentro do meu quarto (restrições médicas) e ninguém contava com a ansiedade que tenho que resolver sozinha, entre a constante amargos trechos não resolvidos que tento entender sobre o coração. Enfim, cheguei! Esse é o ponto que toda essa conversa (textão) serviu até agora. Desculpe. Não é sempre que as palavras me tomam de vontade, então tenho que aproveitar o máximo e encher-me delas.
O isolamento em si, angustiante, ainda involuntariamente, é uma provocação com a liberdade. Que ironia, eu, que adoro o isolamento, tornou se obsoleto aquela velha sensação. Mas não é bem por isso, voltei a fuçar os textos, e procurar ocupar a mente e acalmar o coração, nessas fui de encontro a um fisolosofo que desconhecia até então, e que nesse momento cabe a reflexão.
Blaise Pascal, na verdade é uma matemático, mas também inventor, físico, teólogo, escritor e claro, filósofo. Gênio. E lá vou eu, me deparar com esta frase, que bom, pelo que li é a mais citada dele.. “A infelicidade do homem é baseada em apenas uma coisa: que ele é incapaz de ficar parado no quarto”. Não foi literal o que ele quis dizer, mas foi sobre o homem e sua vida interior, a incapacidade do homem de não conseguir ter essa intimidade, essa aproximação com ele mesmo, ser suficiente, se preencher. Por sua vez, pra se encher de significado e alimentar o vazio, corre atrás de estímulos, coisas materiais, diversões momentâneas, assim preenchendo aquele vazio que sente, que aquilo tornava sua vida feliz, isso é o necessário pra tal felicidade [“o silêncio eterno desses espaços infinitos me enche de pavor”] com esse sentimento o humano enche seu mundo de coisas fúteis, tentando encontrar proteção, adiando o inevitável “vazio”. Portanto, ele acredita que é na quietude “do seu quarto” que você realmente percebe e tem essa conexão consigo mesmo, que não é necessário todo o consumismo e entretenimento supérfluo, que o ser humano é capaz de perceber essas notas visíveis, da capacidade da liberdade, felicidade, sem necessidade de todas essas coisas externas pra encontrar o significado em sua vida.
Quando eu li e entendi, pois, acredito que você já deve saber, lá no fundo do seu ser que isso é verdade e creio que este é um momento em que todos irão perceber que realmente não é necessário tudo que lá fora se encontra é nos acorrentam. E parece tudo lindo e maravilhoso quando a gente entende, mas ainda sim, é difícil pra caramba absorver, por experiência própria, e não tão em relação ao quanto nos é jogado em nosso vazio, com a falsa impressão de preencher, completar. Todos devemos estar antes na quietude do nosso quarto por um tempo e se possível voltar sempre.
“… um nada em relação ao infinito, um todo em relação ao nada, um meio entre nada e tudo. Infinitamente distante da compreensão dos extremos, para ele, o fim e o começo das coisas estão insuperavelmente escondidos em segredo impenetrável e é igualmente incapaz de ver o nada do qual foi extraído e o infinito onde está submerso “.
Não disse, mas Pascal é um teólogo católico, sendo que a fé é algo constante em sua filosofia, eu não acredito em religião, mas todos seguimos uma certa energia. Somos movidos por essa energia que é o Universo.
E cá, no final desse texto me vejo em crise, atônita, e um pouco exausta.

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