Há um tipo de colapso que não grita.
Ele se instala devagar, como infiltração em parede antiga. Ninguém percebe no início. O colapso se instala silencioso, entre suspiros e gestos quase imperceptíveis, dissolvendo o equilíbrio sem alarde. É um processo invisível, que não pede licença nem sinaliza sua chegada — apenas consome, aos poucos, a força que sustenta a aparência de normalidade. Nesse espaço, nada é grandioso ou dramático; é uma sutil erosão, uma invasão calma que desmonta o que antes parecia sólido, enquanto tudo ao redor segue fingindo que nada mudou. Transformam o desconcerto em discurso, como se dar nome ao caos fosse suficiente para torná-lo caminho.
Nem sempre é.
Na maioria das vezes não é.
Na maioria das vezes é só quebra interna camuflada de processo bonito, um caos interno que ninguém quer olhar de frente, porque expõe o quanto tudo pode ruir — mesmo quando, por fora, parece normal. Criou-se um romantismo da instabilidade, como se todo abismo tivesse fundo poético. Mas há descompassos que não levam a lugar algum. Há mentes que se desfazem em silêncio, sem nenhum pingo de lucidez heroica no fim.
Há dias que não ensinam nada. E ainda assim, continuam acontecendo.
Nesse cenário, o corpo segue: responde, comparece, entrega, cumpre. Mas por dentro, tudo está fora do eixo. As conexões se desfazem em ruídos imperceptíveis, o pensamento se fragmenta em ecos desconexos, e a atenção se dissolve em dispersões contínuas. Não há sentido a ser buscado no desequilíbrio; ele não carrega propósito nem promessa — apenas existe, como um fenômeno silencioso que se impõe diante da exigência incessante e implacável do mundo. A mente, perdida entre camadas de discursos sobre autoconhecimento e ciclos que deveriam trazer ordem, percebe que o colapso não é travessia nem passagem, mas um estado prolongado de suspensão, uma morada onde o tempo se estica e a queda se torna chão. É uma permanência na desordem, uma dissolução lenta e profunda do que parecia sólido, sem redenção ou aprendizado, apenas o desgaste inflexível de existir fora do eixo.
O perigo reside justamente na ausência de interrupção. Pelo contrário: essa condição alimenta metas, projetos, reconhecimento. O mundo exalta a produtividade — mesmo quando ela emerge de um corpo em desintegração silenciosa. Não se trata de negar caminhos ou soluções, mas de compreender que nem toda confusão é fértil, que nem toda quebra é caminho, e que nem todo desequilíbrio conduz a uma nova forma de ser. Muitas vezes, resta apenas o desgaste — uma resistência mínima que sustenta a existência.
Talvez aí esteja o paradoxo mais cruel: a ruína que se disfarça em funcionamento pleno, o eixo quebrado que continua girando, até que, inevitavelmente, desabe por completo.
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