Silêncios que se Alongam

Tudo está suspenso.
A floresta respira em névoa, como se o mundo tivesse esquecido de acordar. As árvores, quietas, carregam em si o frio da hora anterior à primeira luz — quando nem o tempo tem certeza se continua. Há orvalho nos galhos, nas folhas, nas margens do invisível. E então, lentamente, como quem não quer interromper o silêncio, um raio de sol atravessa. Não aquece. Apenas toca. Como se dissesse: “ainda estamos aqui.”
Nada se move depressa. O chão permanece úmido, as sombras alongadas, e tudo que pulsa o faz em segredo. Não há pressa em amanhecer. Porque há beleza em não saber se é fim de noite ou começo de dia.
E talvez seja isso o que sustenta: esse instante que não se define, onde tudo é leve demais pra ser dor, e denso demais pra ser calma.

Há, no entanto, uma espécie de estranhamento pairando entre os galhos. Como se a floresta conhecesse algo que os olhos ainda não veem. Uma memória antiga repousa no musgo, nos troncos ocos, no vapor que dança rente ao solo. Os passos — se houvesse passos — ecoariam demais. E mesmo o vento parece pensar duas vezes antes de passar.

A luz, agora mais insistente, infiltra-se por frestas tão estreitas quanto as perguntas que evitamos formular. Ela não dissipa a névoa — apenas a colore. Revela silhuetas que antes pareciam parte do cenário, mas que, à luz oblíqua, ganham uma gravidade muda. O tempo, ali, não escorre: aguarda. Como se algo estivesse prestes a acontecer, mas não o bastante para causar alarde. Só o suficiente para que tudo se torne um pouco mais denso. Um pouco mais fundo.

É estranho perceber o quanto a beleza pode conter inquietação. O quanto a calma pode ser apenas o disfarce de um abismo que ainda não se abriu. O que se move na floresta não são bichos. São pressentimentos. São lembranças que ainda não têm forma, mas que já ocupam espaço. Há nomes que nunca foram ditos. Há histórias que o orvalho escuta antes de evaporar.

E no centro disso tudo, a luz — fina, silenciosa — segue entrando.

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