Para os momentos de silêncio entre o que fomos e o que somos.
Introdução (achei que seria apropriado)
Às vezes, um instante fora do meu próprio universo traz uma lembrança inesperada. Vejo caminhos que se distanciam, vozes e gestos que se transformam, diferentes do que um dia conheci. Não é tristeza, nem julgamento, mas o reconhecimento silencioso de que as mudanças acontecem — e que eu também mudo.
Nesse momento, sinto o eco de todas as vidas que habitei até aqui — uma sobreposição sutil de lembranças e sensações.
Este texto é uma poesia em prosa, nasceu desse instante de observação — um olhar para dentro, para as camadas que formam quem sou hoje, e para a leveza que encontro em seguir adiante, mesmo quando os caminhos se afastam.
Foram tantas camadas,
tanta vida acumulada em mim —
e, ainda assim, permaneço leve,
como se a memória não pesasse,
mas apenas tocasse
com os dedos finos do tempo.
Não é que eu tenha mudado,
é que fui ficando mais silenciosa por dentro.
Como se agora, ao olhar as paredes de mim mesma,
encontrasse marcas de um tempo que ainda pulsa,
mas já não me comanda.
Carrego comigo o cheiro de antigas manhãs,
a luz de uma tarde ensolarada,
as vozes que moldaram minha escuta,
mesmo que já não estejam presentes.
Mas não é ausência,
é presença em outra frequência,
como se algo de mim continuasse habitando
os instantes que já se foram.
Sou feita dessas dobras do tempo.
E embora às vezes pareça que deixei para trás
uma vida inteira,
sei que tudo aquilo permanece —
não como peso,
mas como linha bordada no avesso da pele.
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