Vésper I
Há um momento do dia em que a cidade parece não lembrar quem é.
É quando as ruas ainda estão vazias, o céu guarda o resto da noite, e as janelas não se acenderam por completo. Nesse intervalo, os prédios silenciam, os carros repousam como ferros adormecidos, e até o asfalto parece respirar baixo, como se sonhasse. O concreto se dissolve em névoa. Os postes, tímidos, piscam uma última vez antes de apagarem o mundo.
É nesse tempo que acordo. Não por obrigação, mas porque há algo naquele entre que me chama.
Não é madrugada, tampouco manhã. É o instante suspenso em que o tempo não tem nome e a realidade ainda não se decidiu por inteiro. O café ainda não foi passado, os jornais ainda não foram lançados nos portões, os elevadores não começaram sua coreografia repetida. Tudo está prestes, mas nada é. E nesse quase, respiro com mais nitidez — como se só ali existisse, de fato.
A casa ainda está escura. As paredes, cansadas de serem paredes, descansam. O relógio da cozinha marca uma hora que não parece pertencer a nenhuma lógica. A cidade lá fora e eu aqui dentro compartilhamos o mesmo silêncio: denso, macio, inexplicável.
Ela — eu mesma — se move pouco. Há um cuidado nos seus gestos, como se qualquer ruído pudesse romper um feitiço antigo. Ela sabe que o mundo está prestes a retomar sua velocidade insana. Por isso demora. Por isso assiste. Por isso permanece.
Não é insônia. Não é paz. É um tipo de vigília involuntária — como quem guarda algo que não sabe nomear.
Penso em coisas que não costumo pensar durante o dia.
Elas chegam quietas, sem atropelo. São memórias que não doem, pensamentos que não pedem solução. Apenas estão.
A mulher ali sentada observa pela janela o que ainda não aconteceu. E, nessa espera, algo se revela: talvez o mundo seja mais verdadeiro quando não está tentando parecer.
Não há solidão. Há presença.
Minha com o espaço, minha comigo mesma. Um tipo de comunhão silenciosa que não se explica, mas que insiste em voltar sempre nesse horário.
Era um lugar entre o sono e o estar desperta.
E nesse lugar, eu ouvia as perguntas que o tempo sussurrava — não para serem respondidas, mas apenas para existirem.
Tudo à minha volta parecia escutar também.
As folhas das plantas, os galhos que se esticavam em silêncio, o abajur apagado, o cobertor esquecido no sofá — objetos que carregavam uma memória própria, como se guardassem as marcas dos dias anteriores.
Eles me observavam de volta.
Tudo me via, tudo me sabia, tudo me sentia.
A cidade não dormia. A cidade aguardava.
E então vinha a luz. Não de súbito, mas como quem espreita.
Um raio tímido infiltrava-se por entre as persianas. Iluminava o canto da mesa, encostava no chão, lambia a parede com sua timidez dourada.
E o dia começava.
Os carros surgiam, os vizinhos ligavam suas vidas, os ruídos tomavam conta. Tudo voltava a funcionar, como uma engrenagem exata.
Mas ela continuava ali, corpo presente, alma ainda à deriva.
Porque o que a manhã não conta é esse segredo: que há quem viva entre mundos, num intervalo onde o real e o irreal se tocam sem se fundir.
Onde tudo parece ter um sentido oculto, mas ninguém o procura.
Onde o tempo se dobra em silêncio e o espaço se curva para caber dentro de si.
Ela permanece.
Respira.
Escuta.
E carrega consigo a lembrança da cidade esquecida —
aquela que só existe entre 5h e 6h, quando a realidade ainda não se lembrou de ser o que é.
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