Não foi um acontecimento, nem uma data. Foi um dia qualquer, desses que costumam passar sem lembrança. Talvez eu estivesse saindo, talvez voltando; não lembro ao certo.
O que ficou foi o gesto simples de parar o olhar no rosto da minha mãe. Não como antes, quando a gente cumpre o protocolo de ver sem enxergar. Foi um ver inteiro, demorado, quase desconfortável. E ali estava: o tempo assentado nos traços, um peso suave na pele, o cansaço antigo nas pálpebras. Era como se os anos tivessem decidido se revelar todos de uma vez, na luz daquela manhã comum. O peito apertou — não por drama, não por arrependimento, mas pelo susto de perceber que o tempo não avisa quando começa a somar.
Moramos juntas durante anos, mas nunca fomos da confidência. Não havia segredos trocados ao pé da cama, nem conversas de madrugada. Havia, sim, a rotina compartilhada: panelas, portas, louças, as pequenas tarefas que fazem duas vidas vizinhas. O convívio era a nossa língua. Talvez por isso eu tenha demorado tanto a notar o que estava ali, visível e silencioso.
A proximidade, às vezes, cega. A familiaridade cria um véu. E foi justamente quando me mudei, que esse véu começou a afinar. Nas visitas breves, o rosto dela parecia mudar um pouco mais a cada encontro, como se a distância ajustasse o foco e me obrigasse a aceitar o óbvio que eu não queria nomear.
Não é que tenha faltado amor. Faltou outra coisa, mais difícil de apontar: a tal “amizade” entre mãe e filha, que tantas histórias prometem. Entre nós, houve presença. Houve constância. E talvez seja isso que doa agora — a constância envelhecendo diante de mim sem que eu tenha percebido a tempo.
Naquele dia, olhando com calma, reparei nas mãos com outras veias, no cabelo mais ralo e branco, no cuidado lento para levantar da cadeira. Não havia tragédia, nem espetáculo: apenas um modo diferente de existir, mais perto do delicado, mais atento ao descanso. E eu, que sempre achei que o tempo era largo e elástico, entendi, por um instante, o estreito.
Fico com o que coube naquele olhar, ainda que como um nó na garganta, e permanece comigo, silencioso e constante para que eu nunca esqueça.
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