Conheci é um sociopata. Por um tempo acreditei que sim, mas só por um tempo. Não presto muito atenção nas pessoas (ou presto muita), mas dessa vez fui pega de surpresa, não que tenha ficado curiosa, mas foi intrigante, e isso é bem difícil de acontecer.
Fazíamos algumas sessões de leitura, leitura de mentes. Isso mesmo. Jogamos. Até onde vai nossa capacidade de invasão – Ele mente. Eu sei disso. Eu também. Ele sabe. Mas este é o jogo, saber quando estamos dizendo a verdade, e éramos bons nisso.
“Não posso dizer quanto tempo até eu desaparecer novamente” – ouvi algumas vezes esta mesma frase. Era mútuo – ele sabia.
Existe essa cidade vizinha, que ele conhecia bem, afinal, viveu o suficiente nela. É uma cidade pequena, turística, envolta de uma grande área florestal. Tinha um lugar específico que surgia sempre nas conversas, uma estrada remota afastada da civilização, “se você andar alguns metros um pouco dentro da mata chega a um penhasco, e ainda ali, tem pequenas trilhas que desce o imenso morro, e uns quilômetros a frente, um parque abandonado, há um lago, pelo menos o que restou dele“, ele dizia. Eu conheci.
Estava intrigada, então fomos. Faz parte do jogo. Quando uma peça é descoberta, você deve refazer o caminho.
Aquela “típica” cidade no fim do mundo, fora do centro – um apocalipse zumbi – devo descrever desta forma. Nenhuma alma viva nas ruas, as casas tão afastadas umas das outras e as árvores gigantes que tomavam as ruas, eu conseguia ouvir claramente o som do vento, o assobio agudo em certos momentos, ele canta, e era óbvio as alternâncias de humor, um tanto melancólico e aquele clima apocalíptico me fez sorri, ele percebeu obviamente, a excitação e felicidade momentânea que eu sentia, a maioria das pessoas não percebem isso, é algo raro, ninguém presta atenção, mas ele sim, ele percebe qualquer mínima mudança, isso me assusta um pouco, mas não o bastante – eu poderia desaparecer como sempre faço, mas ainda sentia vontade de ficar um pouco mais.
Pegamos um ônibus numa rua qualquer, quase duas horas esperando o bendito, já estava bufando a essa hora, esperar sempre me irrita, muito. Nesse meio tempo, ele estava longe, não era diferente de mim, estávamos ali, mas, existia uma vasta distância entre nós, uma das coisas que temos em comum. Fazia frio quando chegamos, não tinha notado que éramos os únicos naquele ônibus, não lembro de mais gente nele, mas sei que o ônibus fez algumas paradas antes da nossa parada. Devia ser umas 16 horas e pouco, e a partir dali tínhamos que andar, e cada vez mais longe de qualquer coisa viva, ia ficando mais frio ainda. “Onde me meti…” – não importa, não estou preocupada e tão pouco sentia qualquer coisa parecida, eu estava longe dali, estava tentando alcançá-lo, seus pensamentos em desordem, enquanto andava na minha frente, seus ombros largos, neutros, tapando minha visão, era uma pequena trilha, mais uma vez o vento, dessa vez pude vê-lo deslizando pela superfície do mato alto e passando por nós, os invasores. Nesse instante ele para, vira um pouco olhando para trás, olhando pra mim, os cabelos jogados no rosto pela pequena ventania do momento, esvoaçado, ainda assim vi seu sorriso meia boca que estendia até os olhos que se fechavam, eu conhecia aquilo. Tínhamos chegado pelo que parece.
Ele tinha voltado da sua pequena viagem finalmente, estávamos juntos novamente. Colocando as mãos no bolso quando me olhou uma outra vez, pensei em quebrar o silêncio, mas ele foi mais rápido que eu, não interrompi, voltei meus olhos para o vasto horizonte a nossa frente, a noite caia e ao longe as pequenas luzes da cidade que de tão pequenas pela distância agora entre nós pareciam vaga-lumes, era lindo. Abaixo estava o abismo que ouvira falar tantas vezes, era impossível ver com clareza, era alto, mas sentia as ondas furiosas que emergiam dali, não era uma boa ideia dar mais nenhum passo – meus pensamentos foram interrompidos pela sua voz.
“Tenho essa sensação estranha desde muito tempo, onde pra mim o tempo acaba aqui, nesse lugar. Fico aqui em pé, por horas até o cair da noite, sinto que se eu pudesse deixar meu corpo, ele cairia e rolaria, iria desaparecer“, sua voz era num tom de lembrança – senti todas as palavras, cansadas saindo da sua boca. Novamente hesitei em dizer algo, não havia algo a ser dito, não fazia sentindo algum mesmo que eu quisesse.
“Aqui existe um enorme buraco de despejo…“, dessa vez houve um longo suspiro. “Sabe que não podemos escapar dele, não é?” – foi uma pergunta retórica, sei disso, mesmo assim respondi: “Podemos fugir por um tempo, pelo menos. E, bem… sou boa nisso” – ele sorriu, seguido de uma risada.
Eu sabia que não o veria depois disso, e foi o que aconteceu. Voltei um tempo depois naquele lugar, uma única vez em muito tempo, e entendi.
“Cada segundo de hesitação, conta.”
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