Endorfina.

Longe da multidão é possível ver o quadro todo, me afasto então. Os aglomerados cheios de querer tanta atenção, o desespero para se sentir acolhido, amado, escolhido, uma peça importante no jogo – é interessante assistir ao longe, enxergar nitidamente esse falso improviso decorado.
Já vi os sorrisos, rasgados, trêmulos e cansados, nos becos, contra a parede as peças se movem, descartáveis. É tanta camada que ninguém mais se encontra, é vazio – ecoa, e escorre ralo abaixo. Você encena, você é um ótimo ator, a vida é cheio desses, todos estão encenando, o problema é que a maioria já não sabe mais a diferença, e por fim, vive a vida inteira. Morre. Trágico.

De um jeito ou de outro você sabe, de todos os cantos do corredor, as portas que devem ser abertas, as que não devem, e mais importante, qual delas entrar ou não. O semblante estranho na sua face, assustado, defensivo, meio sorriso trêmulo de canto. O gosto de ferro adocicado em minha boca, tão real que sinto o sangue escorrer pelos lábios. Tudo que processei em dizer. Existe essa rigidez em seu corpo seguido pela longa e agitada respiração, tamanha transparência que não consegue esconder. Esse poço vazio é na verdade você, não eu. Quando cai, fica mais difícil de levantar – alguém disse. Eu cai de propósito, é o que faço. Inevitável. Nada sobre a tristeza, nem a alegria.
Seu medo é visível a distancia, seu falso autocontrole, a hipocrisia, as fissuras no seu sorriso – o seu gosto é agridoce, já provei diversas vezes. Incontáveis vezes.
Com o tempo, você percebe que não há nenhum deus para rezar, vagueio entre indecisões, em certos momentos de toda essa caminhada vislumbro o submundo como areia movediça aos meus pés. O quão forte é o arrepio do prazer e dor, o quanto transborda. De um jeito ou de outro você sabe, qual porta fechar. Mais uma vez tenta o seu máximo, tenta seu melhor sorriso, outros abraços, tenta olhar para o outro lado, sair por outra porta, sentar em outro banco, escolhe outro caminho, e você anda, anda, enquanto ao seu redor tudo se dissolve, esvazia, desaparece. Esses altos e baixos esmagam. É um mergulho profundo e perigoso, tomando o máximo do fôlego pra permanecer o máximo de tempo nessa felicidade extasiante. Mas sufoca. A todo momento você tem que voltar, respirar, tomar um novo e profundo fôlego e mergulhar novamente, e a cada mergulho você morre um pouco, a cada retorno a superfície, você deixa um pedaço de si. Do êxtase ao entorpe. Repetidas vezes.

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